domingo, 8 de junho de 2008

Varanasi

Varanasi é uma cidade de contrastes, mas não destes óbvios, passíveis de alguma divagação intelectual, racional, lógica. Varanasi é uma cidade que te expõe ao contraste interno, confessional.

Primeiro, a emoção de estar em solo sagrado. Eu não sou religiosa, eu não sou hindu, mas é incrível pisar num lugar que é considerado espaço de bênção. Depois, aguentar (porque é mesmo forte!) a barra de ver a morte ali, ao lado, exposta, aberta, santificada. E, por fim, compreender - ou tentar compreender - como o rio pode conter o nascimento, a alegria, as flores. A Vida.

O Ganges percorre 6 quilômetros na cidade e é possível alcançá-lo por meio de 84 gates, portões. As cerimônias de cremação acontecem numa área bem próxima às margens. Não fizemos, claro, fotografias disso, mas presenciamos três delas. O fogo sagrado, onde serão incinerados os restos mortais, é aceso por um membro da família, normalmente o marido ou filho mais velho. As mulheres não participam, mas vimos algumas próximas, de cócoras, umas com as mãos nos pescoços das outras, chorando e lamentando a morte. O choro, no entanto, tb não é comum: diante da dor familiar, a alma do morto pode ficar triste e ter mais dificuldade para partir. O corpo é recoberto por um manto. Colocam sobre ele sândalo, incenso, manteiga, colares e, na boca, um pouco de água do Ganges. A pira finalmente é acesa. Depois, as cinzas são jogadas no rio. O valor das cerimônias varia: pode custar 150 rupias, pode custar 3000 rupias, e há um crematório "elétrico", mais barato, para os mais pobres.

Poucos metros depois, pessoas nadam alegremente. O calor sufocante convida ao banho cheio de piruetas e risadas. Há um jogo de críquete, o futebol da Índia. É domingo e as crianças estão brincando e trabalhando, os jovens passeando, sadhus praticam sua fé envoltos em cinzas - e apenas nelas - e os mais diversos mantras (de man - mente e tra - interior, mente interior) são entoados repetidamente. Um deles diz: " Ganga não tem água, mas o néctar dos céus".

De repente, uma rajada forte nos envolve. O céu está encoberto e promete chuva. Será a chegada das monções? O vento levanta a areia, a poeira, as cinzas, e o nosso rosto é riscado pelos pequenos elementos que não se identifica. Para voltar ao carro, percorremos as ruas do bairro, habitado principalmente pelos dalits, os intocáveis. Todos querem tirar fotos, fazem pose, verificam o resultado. Sorrisos sem dentes, lábios marcados pelo vermelho do pan (um fumo para mastigar que é bem comum aqui). No meio-fio, corre o esgoto. Um senhor dorme sobre uma pedra enquanto uma mulher lava as louças. Vacas e cabritos esbajam sua condição senhorial entre o trânsito. É duro, é forte, mas não há infelicidade ali, mas calma, conformismo. Há uma paz contida na balbúrdia e que eu não sei, não posso, não consigo explicar.

Cheguei ao hotel e chorei por algum tempo, mas não era medo, nem dor, nem nada parecido. Era a força de uma revelação, um mundo. E ele vai continuar exatamente como está, com suas crianças de infância partida, seu universo dual de morte e celebração da vida, seus pujas e gurus vestidos com o laranja sagrado. Não, a Giovana que saiu do hotel não foi a mesma que voltou. Nem a Fernanda, pq tenho certeza que ela compartilha da minha opinião. É mais do que uma visita de pesquisa, é uma pesquisa de visita aos olhos de um mundo diverso, mas cuja chama se resvala no que eu (nós) temos de melhor: a humanidade que nos assemelha.

8 comentários:

Namastê disse...

Oi Gi.
Amei seu texto.
Agora sabes exatamente que te falei ontem.
Amiga todos nos choramos apos esse o trajeto que fez.
E uma força que nem nós mesmos sabemos explicar so sentindo.
Sinta apenas e evoluar,pois não é a toa que estais nesse universo hoje...
Luz amiga em seu caminho...Namaska...Deva Shakti

ersatz disse...

Começou como curiosidade e uma certa avidez que tenho por informar-me sobre universos que almejo. Mas está virando um prazer de partilhar. De sentir-se próximo de sua viagem e isto é algo que vem de suas letras juntas. De sua construção em texto que nos conduz a algo mais perto do que você vê. Que texto lindo já pela manhã. Sigo acompanhando por aqui. Giovana, obrigado mesmo.

Malprg disse...

>Não, a Giovana que saiu do hotel não foi a mesma que voltou.

Sabia que não seria.

Anônimo disse...

oi gio
to lendo o blog sempre e adorando sua viagem pela India beijos
Isa

Denise disse...

Oi Giovana,
Conversei com a Ximena hoje e ela comentou que vc tinha um blog, então entrei só por curiosidade e fiquei encantada, creio que vou dar continuidade a leitura, vc escreve belíssimamente bem, de forma fácil e contagiante, me senti aí... pertinho de vc.
Bom... não sei se serve de grande coisa, li um livro um tempo atrás muito bacana, fala um pouco da índia, da religião, se vc se interessar e puder, leia: Paramahansa Yoganada - Autobiografia de um Iogue.
Fala-se muito dos costumes, da meditação, da busca deste mestre.

Boa sorte e ... Om Shanti, Namastê.
Beijokas tbém. rsrsrs
Denise Fávaro Leone

GLORIA PEREZ disse...

Gio, também senti assim. Não se compreende a Índia sem passar por Varanasi.
beijo

GLORIA PEREZ disse...

Gio, também senti assim. Não se compreende a Índia sem passar por Varanasi.
beijo

Raquel Valadares disse...

Gio, que impressão maravilhosa. Varanasi> Flashback > chorei contigo agora. Instante colecionável que, acredite-me, cresce dentro de nós.

Beijo grande! Raquel