quinta-feira, 12 de junho de 2008

São quase 10 horas da noite de um dia bom. O calor, que ontem passou dos 40, foi amenizado por momentos de chuva rápida. Claro que não nos furtamos ao banho! Fomos abençoadas pelas chuvas em Jaipur, com o rosto respingado e alma de criança (o pobre do Yogesh, nosso guia, deve pensar que somos doidas!).

Mas antes de contar as aventuras nesta parte da Índia, quero falar mais de Varanasi. Segundo Anil, que nos orientou por lá, a cidade oferece algo para todo mundo, depende do que os olhos alcançam. Os nossos, felizmente, estavam alerta! Baita experiência de vida!!!

Na segunda-feira pela manhã, fomos, mais uma vez, ao Ganges. Um pouco familiarizadas com aquele tumulto no peito, ficou mais simples olhar, respirar, crer no óbvio, crer no "diante de nós". Um guru nos abençoou. A vista estava plácida, serena. Toda a margem de Ganga Ma parecia sorrir. A ondulação das águas era uma resposta às ondas da minha maré no dia anterior. Foi pleno.

Depois, fomos conhecer o Widow Ashram, para onde algumas mulheres vão depois da morte do marido. É um viuvário (há dois no Rajastão, o estado onde estamos). Lá moram 18 mulheres, todas com mais de 60 anos e sem condições financeiras de prosseguir a vida fora dali. Conversamos com Srimanti Shantí,que nasceu em Bihar e mora há seis anos na casa. É uma mulher pequena, de mãos fortes em contraste profundo com o corpo frágil. Os olhos são atentos e percorrem rapidamente o meu rosto quando eu digo que quero conversar. Deve ser estranho, não? De repente, uma branquela de cabelos curtos demais, calça longa demais, instrumentos múltiplos nas mãos (mochila, máquina fotográfica, caderno e blá, blá, blá) pede para entrar - um pouco - na rotina absoluta que se leva naquele espaço, entre os quatro quartos com utensílios de alumínio, camas simples e proteção contra mosquitos. Ela assente com um gesto de cabeça e vamos nos descobrindo.

Viúva há 15 anos, Srimanti tb perdeu o filho. Para não ser um fardo para a nora e o neto, foi morar no viuvário. Diz que a vida é boa. Não usa cosméticos e só veste branco em memória do marido (é a cor das viúvas). Cozinha a própria comida e me diz, orgulhosa, que recebe visitas sempre. Não parece triste, não parece angustiada. A liberdade restrita (os portões da casa abrem às 7 da manhã e são fechados às 5 da tarde) não incomoda. Será que ela não pensa o mesmo de mim? Será que a liberdade restrita é a minha, justamente pq penso que tenho controle do caminho por onde quero seguir e tento lidar com toda a impertinência de uma sociedade contemporânea e cheia de firulas existenciais? É bem possível.

A próxima parada foi o Ashram da Ordem Ramakrishna. Gente! Que incrível! Há um hospital, uma escola para monges, espaço para hospedagem. Quem nos recebeu, com carinho, atenção e condescendência, já que as minhas perguntas são de uma iniciante, foi o Swami Nilakanthanada. Homem gentil, de fala mansa e concreta (emite uma certeza que se pode pegar nas mãos. A voz dele é senhora do espaço onde caminha!), apontava orgulhoso para as instalações. E, acreditem, era um piadista! Nos fez rir, riu do meu inglês, contou anedotas. A Índia, mais uma vez, me dá uma lição: a santidade está ao alcance do meu ponto de vista, e aquele homem era o horizonte desta condição. Namastê, o Deus em mim saúda o Deus em vc!

O último compromisso do dia (e que compromisso!!!) foi assistir à cerimônia do entardecer no Ganges. Pegamos um barco, fomos para o meio do rio e nos deixamos envolver pela celebração de formas e cores que se emoldurava pela noite. O que é aquela força, o que são aquelas cores, aquele som? O fogo sagrado vai tomando o tempo e quando se vê já é hora de partir, pq o mundo parou por alguns instantes, enquanto os monges conduziam os rituais, mas deve recomeçar simplesmente pq é assim e assim é farto. Juro que senti o balançar das águas pelo corpo durante toda a madrugada e ainda agora, relembrando, sinto arrepiar o braço. Fernanda tb adorou.

Amanhacemos a terça-feira no mesmo lugar, desta vez para ver a cerimônia da manhã. É lúdico! Indianas lavam os cabelos, homens juntam as mãos em reverência ao sol, crianças brincam de pular dos ombros de seus colegas, jovens escovam os dentes. Um sadhu observa seu grupo andar em círculos. Bem perto, uma mulher de outro lugar, possivelmente européia (branca, branca, branca!), medita em posição de lótus. O dia desponta numa das cabeceiras do rio e eu me despeço de Varanasi, um lugar onde se perde, se encontra. Se refaz. Foi tão bom que eu tenho vontade de me dizer: "- Hei, Gio, prazer em te conhecer". Mãe Ganga me pariu pela segunda vez (mas sei que ainda nascerei outras tantas pela vida...).

Beijos meus.

2 comentários:

Pai disse...

Oi Gio Prannam! Voce é digna desta reverencia! Eu sabia que voce ja tinha muitas Indias dentro de voce. Voce esta neste projeto por conspiração cósmica...vc e Gloria estão juntas por sincronissidade. Se meu amigo maluco beleza estivesse vivo, diria que voce nasceu antes de dez mil anos atras e...
Abracos,

Elson Om Tat Sat

Namastê disse...

Nossa Gi
Descreveste tudo que muitos de nós vivemos ao passar por VARANASI.
Realmente nascemos novamente...
Hoje mais do que nunca sabes a sensação de renascer...
Lus e energia positivas sempre para sua vida..Namaskar..Deva Shakti-Dani